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Tristeza
A barreira do preconceito

INTOLERÂNCIA DIÁRIA DESAFIA PCS

O preconceito está presente na vida de muitas pessoas com paralisia cerebral. Essa opinião desfavorável, concebida antecipadamente, cria mais uma dificuldade na hora da inclusão. A deficiência intelectual é comumente atribuída a todos os PCs, especialmente os casos mais graves. Sylvia Bönte Pires, de 34 anos, já vivenciou essa situação.

A síndrome, no caso dela, foi provocada por falta de oxigenação no cérebro ao nascer e a impede de andar, dificulta a fala e a coordenação motora das mãos. Mas o impedimento para por aí. Intelectualmente capaz, ela contorna os obstáculos no caminho. Depois de um tempo de conversa, já fica mais fácil entender suas palavras e perceber que seus sonhos não são diferentes dos da maioria. Ela quer casar, terminar a faculdade e ser famosa. Na sua época de escola, 20 anos atrás, a inclusão social era ainda mais atrasada. Conseguir uma vaga em escola regular foi uma luta. A única que a aceitou tinha dois lances de escada e nenhuma acessibilidade.

O sonho da faculdade sempre esteve presente, mas ela não pôde realizá-lo logo que terminou o ensino médio. Sua mãe, Elisabeth Bönte, conta que por complicações de saúde não pôde cumprir o papel de levar e acompanhá-la diariamente. Seria preciso auxílio nas necessidades do dia a dia, como comer e ir ao banheiro. Apenas quando a irmã, Milena, decidiu cursar Pedagogia na Universidade Estácio de Sá, Sylvia pôde se matricular. Desta forma, a irmã a ajudaria. Porém, nem foi preciso. A Estácio de Sá disponibilizou uma ledora, Sueli Barzan, que acompanha as aulas e transcreve o que for preciso.

Sylvia queria mesmo era cursar comunicação social, mas teve que acompanhar a irmã e agora pretende se formar na área. Ela explica que, em pedagogia, não necessariamente precisa ser professora. Existem muitas áreas que ela poderia seguir como pedagogia empresarial ou hospitalar e até virar escritora. No entanto, sua intenção é começar outra faculdade na sequência.

O preconceito existe, mas não a incomoda. É comum as pessoas duvidarem de sua capacidade e a encararem na rua, curiosos. Ela lembra de um caso no qual, em uma loja de roupas, conversando com sua mãe sobre quais peças levar, a vendedora a olhou e disse espantada: "Nossa! Ela entende!".

“Eles tratam a pessoa com paralisia cerebral como um deficiente intelectual e não só físico. As pessoas com paralisia cerebral não necessariamente têm deficiência intelectual, sabe? Ela só quer viver a vida dela, como você vive, como todos”, diz Sylvia.

Atualmente no segundo semestre da faculdade, conta que a maioria dos colegas a trata bem, exatamente do jeito que ela quer ser tratada: normalmente. Existem alguns que a ignoram, mas ela afirma não ligar. “Por mim, eu não estou nem aí para essas pessoas. Na minha vida toda eu fui assim, eu nunca liguei, eu nunca dei bola. Eu vou fazer o quê?”

Depois de conhecer a Sylvia, fica claro que a paralisia cerebral é a última característica que poderia ser usada para defini-la. De paralisada, ela não tem nada. Criou um blog, escreve poemas, milita por sua causa, era fã do extinto programa CQC, da Band, e vira e mexe encontra com os integrantes em apresentações e eventos. Gosta de shows, viagens e já foi até para a balada! Na verdade, com a família ela topa qualquer aventura. E agora vive a jornada da graduação ao lado de sua irmã. O preconceito? Existe sim, mas não chega a ser uma barreira para Sylvia.

Sylvia Bönte Pires com sua família.

O preconceito é o ópio do mundo

A caminho da inclusão

No mundo há mais de um bilhão de pessoas com deficiência, segundo Relatório Mundial de Saúde (OMS), publicado em 2011. Eles enfrentam diariamente o preconceito e a falta de preparo da sociedade para com eles. O tratamento dado a esses cidadãos, contudo, tem se modificado na última década, com o avanço da legislação inclusiva e difusão de campanhas de conscientização. Para Suely Katz, psicóloga e fundadora da ONG Nosso Sonho, o preconceito é decorrente da falta de informação.

Sylvia, por exemplo, já ouviu pessoas questionando se lugares como parques de diversões eram apropriados para ela. Até dentro da universidade já presenciou algumas situações de preconceito, porém, mais veladas. Problemas de fala ou de locomoção como os dela são comumente associados à deficiência intelectual. No entanto, é importante ressaltar que nem todos as pessoas com paralisia cerebral têm o intelecto afetado.

Elisangela Vasconcelos, PC formada em Psicologia, ouviu em seu local de trabalho, a ONG Nosso Sonho, um rapaz questionando se ela era capaz de pensar. Esse comentário a entristeceu na época e a levou a escrever um artigo para a revista "Bem Vindo A. Nós", intitulado: "Será que ela pensa?".

O preconceito afeta as pessoas de várias formas, podendo causar depressão e problemas de autoestima. Veridiana Helfstein, 21 anos, tem paralisia cerebral e cursa Relações Públicas na Faculdade Cásper Líbero. Em seu segundo ano de graduação, teve uma crise emocional e reprovou o ano por falta. "Ela cresceu, e entender que é uma adulta deficiente física foi muito difícil", explica Daniela Helfstein, sua mãe.

Embora perceba que resiliência seja uma característica observada em alguns PCs, a psicóloga Ana Carolina Diaz, que atende em seu consultório pessoas com paralisia cerebral há sete anos, explica que o processo de aceitação é difícil e casos de depressão costumam acontecer. "A dificuldade em se enxergar como um sujeito cheio de potências é agravada pelos obstáculos diários", explica, "isso pode criar um bloqueio para lidar com todas as demandas sociais".

O especialista em inclusão social, Romeu Sassaki indica o caminho para acabar com a intolerância: "Os preconceitos e as resultantes discriminações são eliminados por três tipos de experiência: conscientização, sensibilização e convivência, os quais devem envolver todas as pessoas, com ou sem deficiência".

Mesmo com essas dificuldades, os PCs entrevistados nesta reportagem continuam a luta diária na esperança de tornar o mundo cada vez mais inclusivo, seja na faculdade, no mercado de trabalho ou mesmo no dia a dia.

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B - Sim, mas nunca tive oportunidade de ter uma conversa longa
C - Não, mas porque nunca tive oportunidade
D - Não, porque não saberia como iniciar uma conversa

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