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Social
Em busca da inclusão

Portas fechadas para o mercado de trabalho

Engajada na luta por suas conquistas, o único obstáculo que Veridiana Helfstein, 22 anos, estudante do segundo ano de Relações Públicas na Faculdade Cásper Líbero, ainda não conseguiu contornar foi o mercado de trabalho. Por conta da paralisia cerebral, que afetou seus membros inferiores, ela anda com dificuldade. O transporte público, com grandes vãos para entrar nos trens e degraus para subir nos ônibus, passou a ser um problema. Além disso, ainda tem que enfrentar pessoas duvidando da sua deficiência e reclamando quando ela, por exemplo, senta em um banco preferencial. Essas circunstâncias levaram-na a solicitar para as empresas contratantes a conversão do vale transporte em créditos para táxi ou Uber. Mas as companhias nas quais participou do processo seletivo não foram favoráveis ao pedido. Então, a busca por um estágio continua.

A mãe, Daniele Halfstein, foi uma das maiores inspirações para ela se apaixonar por comunicação e adentrar nesse mundo. Dona de um sebo no centro da cidade, acabou por incentivar o gosto pela leitura. Ali, em meio às estantes e livros da loja da mãe, Veridiana se sente à vontade e com forças para seguir em frente.

Desde nova, procura superar suas diferenças sozinha e com determinação. Ainda criança, começou a utilizar muletas cor de rosa, por escolha da mãe, para que as pessoas reparassem na cor e não no acessório. No ensino médio, batalhou para andar sem o apoio. “Eu escolhi vencer por mim mesma, eu escolhi me locomover sozinha, sem nenhum auxilio."

Também foi preciso iniciativa para entrar na faculdade. A vontade era grande, mas as condições financeiras da família, na época, não eram favoráveis. Portanto, ao passar no vestibular, vasculhou o site da Cásper Líbero procurando alguma oportunidade de trabalho para conseguir ajudar a mãe a arcar com as mensalidades.

Conseguiu um emprego na própria instituição e ficou por um ano, até que, por conta de uma crise emocional, precisou se afastar das tarefas acadêmicas. Chegou a reprovar o ano por faltas. Assim que a depressão, ocasionada, entre outras coisas, pela dificuldade de aceitação de sua condição física, melhorou, ela voltou às aulas e recomeçou a procurar emprego.

Apesar de ter um bom currículo e sentir que está preparada para ingressar no mercado, ela ainda não encontrou portas abertas. Já passou para a fase final de diversas multinacionais, mas ao pedir a substituição do vale transporte por créditos em táxi ou Uber, foi dispensada. Para ela, o mercado de trabalho não é justo com aqueles que possuem alguma deficiência. "As empresas podiam ser um pouco mais flexíveis", comenta.

Na faculdade, ela sempre está sorrindo e cantarolando. Tem orgulho em dizer que não precisa de muita ajuda para ir até a sala de aula, pois é tudo bem equipado e preparado para recebê-la. A única dificuldade é na hora de realizar provas. A paralisia cerebral veio associada a um desvio de atenção que, na hora da avaliação, dificulta a organização dos pensamentos. O coordenador do curso de RP, Sérgio Andreucci, conta que ela já chegou a passar mal antes de uma prova devido ao nervosismo diante do restante da classe. Portanto, a realização das atividades ocorre em uma sala separada e com o auxílio de Andreucci ou algum funcionário da instituição, que aplica a prova de forma oral e transcreve as respostas.

Veridiana explica que não tem muitos amigos na faculdade, pois alguns consideram suas necessidades decorrentes da paralisia cerebral como privilégios. Ela já aprendeu a lidar com essa situação e afirma que os amigos reais estão fora do meio acadêmico.

A estudante cheia de planos faz o possível para alcançar seus objetivos. Atualmente, está com um projeto de blog que irá retratar um pouco de sua vida ao lado do namorado, Felipe Gallo. "Para a sociedade uma pessoa com deficiência tem de namorar outra com deficiência, e não é assim que funciona", afirma. Esse é o tema do projeto “casal adaptado”, no qual ela vai tratar do relacionamento entre uma pessoa que tem deficiência e uma que não tem.

Além disso, Veridiana também busca atuar profissionalmente na área de relações públicas e, posteriormente, morar fora do País com Felipe. O plano é ir para Dublin, na Irlanda, onde a acessibilidade é superior. "Pode parecer um exemplo bobo, mas o metrô não tem aquele vão entre a plataforma e o trem", explica. Independente do lugar, a comunicação sempre fará parte de sua vida e é a área que quer atuar profissionalmente. "A comunicação é minha grande carta na manga, meu grande coringa", diz ela.

Veridiana Helfstein no sebo de sua mãe, Daniele

Trabalho - Muito além do capital

O trabalho é um direito fundamental, garantido pela Constituição Federal de 1988. A importância de trabalhar e exercer uma profissão vai muito além do salário recebido no fim do mês. A inatividade e o desemprego mexem com a dignidade do indivíduo, que é impedido de se realizar como cidadão, como afirma a psicóloga Ana Carolina Diaz.

Essa é a situação que muitas pessoas com paralisia cerebral (PC) enfrentam. Apesar da lei de cotas, Nº 8.213, de 24 de julho de 1991, exigir que toda empresa com 100 ou mais funcionários preencha de 2% a 5% de seus cargos com pessoas com deficiência, os PCs mais graves dificilmente são contemplados com essas vagas. As empresas buscam indivíduos com deficiências mais leves para preencher o quadro de funcionários e não se disponibilizam a arcar com os custos, às vezes mais elevados, que os profissionais com paralisia cerebral podem demandar. O grande problema é que, nos casos mais graves, o PC é dependente de outra pessoa para tarefas cotidianas como escrever, se locomover e até comer ou ir ao banheiro. Seria preciso um atendente pessoal para auxiliá-lo.

Charles Possamai denuncia um episódio no qual fica claro que a contratação só ocorreu para que, durante uma fiscalização, a empresa estivesse em dia com a Lei de Cotas. Seu filho, Djeison, que tem paralisia cerebral, teve sua carteira assinada pelo Hospital e Maternidade Beneficência Portuguesa de Santo André por três meses. No entanto, apesar do pagamento ter sido realizado corretamente, ele nunca esteve no hospital. Após esse período, foi dispensado.

Em um mundo capitalista, onde as companhias buscam o lucro acima de tudo, essa inclusão dos PCs no mercado de trabalho é complicada. Diante desse cenário, Suely Katz, fundadora da ONG Nosso Sonho, fez uma parceria com empresas privadas para que dez jornalistas com paralisia cerebral fossem contratados e produzissem a cada quatro meses uma nova edição de 30 páginas da revista “Bem vindo A. Nó.S”. Nem todos são formados em Jornalismo. Elisangela Vasconcelos, por exemplo, é psicóloga, mas como nunca conseguiu trabalhar na sua área acabou aceitando o desafio. Ela conta que, no início, seus textos pareciam laudos técnicos de psicologia, porém, com o tempo, foi pegando o jeito.

Mais informações sobre a ONG Nosso Sonho podem ser encontradas aqui.

P.S.: O Hospital e Maternidade Beneficência Portuguesa de Santo André foi contatado para apresentar sua versão sobre a contratação de Djeison Possamai. No entanto, até a data da publicação da reportagem, não foi apresentado nenhum posicionamento oficial.

Depoimentos sobre mercado de trabalho

Pessoas rejeitadas pelo mercado de trabalho

Infográfico Social 1

No Brasil, de cada 100 pessoas com deficiência (PcD), cerca de 60 (60%) compõem a População Economicamente Ativa (PEA), que são pessoas na faixa etária dos 16 ao 65 anos de idade.

Essas 60 PcD se apresentam nas seguintes situações:

Infográfico Social 1

1 (1,8%) tem emprego com carteira assinada

5 (8,2%) são donas de pequenas empresas

18 (30%) desempenham trabalho informal

36 (60%) estão desocupadas

Destas 36 pessoas


18 (50%)
São aposentadas e/ou sem condição de saúde para voltar ao trabalho

18 (50%)
desejam trabalhar, mas não conseguem ser admitidas no mercado de trabalho mesmo tendo qualificação profissional

Portanto, de cada 100 pessoas com deficiência em idade de trabalhar, 18 querem ter emprego, têm escolaridade e qualificação profissional mas não estão trabalhando por falta de aceitação no mercado de trabalho.

Fonte: Romeu Sassaki, presidente da ANEA

Aplicado ao Censo IBGE 2010:

Infográfico Brasil

Em 2010, a população do Brasil correspondia a 190.700.000 habitantes;

23,9% (45.577.3000) eram pessoas com deficiência;

Desse total, 5.414.400 estavam fora do mercado de trabalho mesmo estando em condições de serem contratadas.

Estima-se que hoje esse número ultrapasse 6 milhões. Dos 6 milhões, cerca de 4 milhões (66%) poderão ingressar pela metodologia tradicional de colocação. Os outros 2 milhões (33%) só poderão ser colocados mediante ao emprego apoiado.

Emprego apoiado - Visando à inclusão

O mercado de trabalho está longe de ser totalmente inclusivo. No ano de 2014, segundo Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Previdência Social, existiam 1.041.465 vagas garantidas pela Lei de Cotas em todo o País, mas só 298.633 pessoas com deficiência foram empregadas, ou seja, 28,7%. No Estado de São Paulo, muitas vagas também não foram preenchidas e o cumprimento da Lei de Cotas foi de apenas 31,6%.

Um dos motivos pelo qual a taxa de contratação de pessoas com deficiência está baixa é a falta de interesse das empresas em receberem indivíduos com limitações mais severas, que apresentam desafios mais significativos para o desempenho profissional, como aqueles que têm paralisia cerebral grave. A partir do Censo IBGE 2010, avalia-se que cerca de dois milhões de pessoas, com condições e idade para exercerem uma profissão, estão nessas condições. Portanto, para que elas possam obter um emprego competitivo, existe o emprego apoiado (EA).

Romeu Kazumi Sassaki, presidente Associação Nacional do Emprego Apoiado (Anea), que oferece consultoria às entidades que já possuem o programa de EA ou pretendem implantá-lo, estima, a partir de dados levantados em 2014 pelo economista Vinicius Gaspar Garcia, que no município de São Paulo aproximadamente 40.000 pessoas possuem deficiência severa e, portanto, só poderiam entrar no mercado de trabalho através da metodologia do emprego apoiado.

Segundo o site da associação, o emprego apoiado tem a função de inserir “pessoas em situação de incapacidade mais significativa que não estão sendo atendidas pelos sistemas tradicionais de colocação ou não conseguem se manter em um emprego devido à necessidade de apoios mais intensos”. Ou seja, essas pessoas, com a ajuda dos consultores do EA, são inseridas em empregos competitivos, onde vão trabalhar lado a lado com pessoas sem deficiência e aprender na prática a exercer uma função.

Mais informações podem ser encontradas no site: www.aneabrasil.org.br/ ou pelo e-mail: empregoapoiadobrasil@gmail.com

Há mais de 200 leis específicas para pessoas com deficiência (PcD) no Brasil. No entanto, o país que se coloca entre as principais nações que abraçam a causa ainda enfrenta a resistência e o preconceito. Seja por falta de informação ou mesmo de sensibilidade, existem aqueles que não sabem lidar com as diferenças e, além de provocar a intolerância e o desrespeito, aumentam as barreiras que impedem uma sociedade inclusiva.

7 barreiras da inclusão

Existem sete barreiras que impedem que a inclusão ocorra de fato na nossa sociedade. Descubra, entre as palavras do quadro, quais são elas.

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pensamento
latitudinal
comportamental
arquitetônica
comunicacional
ambiental
metodológica
mercadológica
estatal
exclusiva
instrumental
programática
atitudinal
normal
natural
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Fonte: Cartilha "As Sete Dimensões da Acessibilidade", Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, do Governo do Estado de São Paulo. 2015.

Paradigmas sociais se transformam através das décadas

Para que entender bem o que é inclusão, deve se explicar também os conceitos anteriores: exclusão, segregação e integração.

A sociedade viveu, primeiro, a completa exclusão das pessoas com deficiência do convívio social. Em muitas culturas, era comum o sacrifício de indivíduos com quaisquer limitações. Posteriormente, a segregação ganhou força. “Segregação é uma palavra forte, mas é melhor que a exclusão. A segregação não mata, mas separa da sociedade. Aí que surgiram instituições para internar para sempre a pessoa com deficiência e escolas especiais”, ressalta Sassaki, que também é consultor de inclusão social e autor dos livros “Inclusão: Construindo uma sociedade para todos” e “Inclusão: acessibilidade no lazer, trabalho e educação”.

Em seguida, surgiu a integração. “A integração tenta colocar a pessoa com deficiência dentro da sociedade. Que sociedade? No sistema educacional, mercado de trabalho, sistema cultural e todos os campos de atividade humana. Só que com certa característica: apesar de estar matriculado em escola regular, o aluno com deficiência ficava em uma sala especial. Não deixavam os estudantes se misturarem. Isso era integração. E não era toda pessoa com deficiência que ia para as classes especiais. A escola selecionava através de diagnóstico para ver se essa pessoa tinha o mínimo de capacidade cognitiva. Os que não passavam, não entravam e, portanto, continuavam segregados na sociedade. E o mesmo acontecia no mercado de trabalho. Essa integração durou 40 anos no Brasil, de 1950 a 1980”, explica Sassaki.

Na integração era necessário o esforço do indivíduo com deficiência e de sua família para que este pudesse fazer parte da sociedade. No entanto, o paradigma começou a mudar entre as décadas de 80, 90 quando um novo conceito começou a ser difundido, a inclusão. Nessa concepção é a sociedade que se molda para receber pessoas com deficiência, que devem ser incluídas de forma absoluta.

Diferença entre: Exclusão, segregação, integração e inclusão

Fonte: Livro "Inclusão: Construindo uma sociedade para todos", Romeu Sassaki, 2006

O QUE É UMA SOCIEDADE INCLUSIVA?

O conceito de sociedade inclusiva foi desenvolvido pela ONU em 1981, durante o Ano Internacional de Pessoas Deficientes (AIPD), cujo lema dizia que as pessoas com deficiência desejavam “Participação Plena e Igualdade”.

Sassaki identifica que a inclusão social teve origem nos Estados Unidos, mas que logo adiante aconteceu também no Brasil. “No começo da década de 90, os EUA já estavam adotando a educação inclusiva. Já o Brasil adotou quase no final da década de 90”, relata.

A inclusão social pode ser definida como a maneira que a sociedade se adapta para abranger pessoas com deficiência a fim de que as mesmas possam se desenvolver plenamente. Uma das principais medidas para transformar a sociedade em inclusiva é não pensar que as PcD formam um grupo separado, como cita Romeu Sassaki. Ele acredita que “inclusão significa aceitar a todos. Caso um fique de fora, já não é inclusão”.

Vale ressaltar que uma sociedade dentro desse modelo é positiva não apenas para os indivíduos com deficiência, mas para todos, como avalia a psicóloga Ana Carolina Diaz, que atende PCs há sete anos. Afinal, é por meio dela que se torna possível a interação entre pessoas, com ou sem deficiência. “Conviver e respeitar um ao outro pode gerar indivíduos mais tolerantes e cidadãos melhores”, ressalta.

Sassaki

A questão da terminologia

É comum usar o termo “normal” para fazer referência a pessoas sem deficiência. Mas será que a comparação é certa? De acordo com o Sassaki, não. “O que não é normal? A questão de normalidade é muito questionada e não se aplica mais hoje a uma sociedade que quer aceitar a todos como eles são. Além disso, o que é ser normal? Então, quem tem deficiência é anormal?”, diz o especialista. “Pessoa não deficiente também não é um bom termo, assim como pessoa deficiente. ‘Deficiente’ é um adjetivo. Não é a pessoa toda que é deficiente.” Pessoa portadora de deficiência ou especial também são termos do passado, já que podem ofender.

Desde 2001, a questão da terminologia passou a ser seriamente estudada. Em 2006, graças à ONU, se adotou um documento que considera “pessoas com deficiência” como sendo o termo mais adequado. “Quando se quer ressaltar o papel social deve se referir como sendo professor com deficiência, aluno com deficiência, trabalhador com deficiência ou atleta com deficiência, por exemplo”, explica Sassaki.

Tire suas dúvidas

Saber a terminologia correta colabora para que se desencoraje práticas discriminatórias e se dê passos maiores rumo à uma sociedade inclusiva. A seguir, seguem alguns termos incorretos relacionados ao âmbito da deficiência, assim como comentários e equivalentes termos corretos.

1. Pessoas ditas deficientes

Termo correto: pessoas com deficiência. A palavra dita, neste caso, funciona como eufemismo para negar ou suavizar a deficiência, o que é preconceituoso.

2. Pessoas ditas normais

Termo correto: pessoas sem deficiência. Neste caso, o termo “ditas” é utilizado para contestar a normalidade das pessoas, o que se torna redundante nos dias de hoje.

3. Portador de deficiência

Termo correto: pessoa com deficiência. No Brasil, tornou-se bastante popular, acentuadamente entre 1986 e 1996, o uso do termo portador de deficiência. No entanto, pessoas com deficiência aponta que elas não portam deficiência; que a deficiência que elas têm não é como coisas que às vezes portamos ou não (por exemplo, um documento de identidade, um guarda-chuva).

4. Pessoas portadoras de deficiência (PPD’s)

Termo correto: pessoas com deficiência. O uso do termo pessoas portadoras de deficiência (PPD) ficou conhecido, no Brasil, entre 1986 e 1996. Hoje, no entanto, o termo adotado passou a ser pessoas com deficiência. Quanto à grafia correta, a sigla recomendada é PcD, no singular e no plural, significando “pessoa com deficiência” ou “pessoas com deficiência”.

5. Sala de aula normal

Termo correto: sala de aula comum. Quando todas as escolas forem inclusivas, bastará o termo sala de aula sem adjetivá-lo.

*Fonte: Romeu Kazumi Sassaki, consultor de inclusão social e autor do livro “Inclusão: Construindo uma Sociedade para Todos” e do artigo “Terminologia sobre deficiência na era da inclusão” , atualizado e revisado em 2013.