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Criatividade
a arte da adaptação

TECNOLOGIAS QUE INCLUEM

Para as pessoas com paralisia cerebral, ações aparentemente simples como se comunicar, se movimentar e fazer parte da sociedade podem virar verdadeiros desafios. As tecnologias assistivas existem para facilitar esses processos e garantir que estudantes como Felipe Micalli, 20 anos, aluno de Jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi, possam alcançar todo seu potencial.

É unânime entre os professores e colegas de classe, as declarações sobre a inteligência de Felipe. O jovem, embora com limitações na fala e nos movimentos, desde cedo sentia a necessidade da comunicação, começando o processo de alfabetização a partir dos quatro anos. "Conseguir uma vaga na AACD (Associações de Assistência à Criança Deficiente) foi difícil, mas achar, mais de uma década atrás, uma escola regular preparada e que o aceitasse foi mais difícil ainda", revela a mãe de Felipe, Sandra Micalli. Atualmente, em tempos que a sociedade caminha para a inclusão, ingressar no ensino superior foi mais fácil.

"A escolha da universidade foi, primeiramente, pela acessibilidade e pela proximidade de casa", explica Sandra, que o leva até a aula diariamente. Nos primeiros semestres ela acompanhava integralmente Felipe, mas com o passar do tempo, o jovem foi conquistando a turma. Aos poucos, a mãe foi deixando a sala de aula para permitir que o filho experimentasse o universo acadêmico da forma mais independente possível.

Com boas notas, Felipe é um dos melhores alunos do 6º semestre de Jornalismo da sua universidade. Mesmo sem poder falar e utilizando cadeira de rodas, o futuro jornalista deixa claro que tem muito a dizer e a acrescentar, ainda que seja por meio do seu tablado, pelo qual aponta as letras e constrói as palavras.

A escolha do curso também foi bastante pensada. Quando criança, Felipe tinha mais afinidade com as matérias da área de humanas do que com as de exatas, por estas serem mais difíceis para ele executar. "Ele não tinha certeza se queria ser jornalista", conta a mãe, "começamos a conversar sobre o que ele queria fazer e como Felipe sempre gostou de assistir telejornal, ler revista e escrever, foi fácil ajudá-lo a escolher. Hoje temos certeza, é a profissão que ele quer para a vida".

A entrada dele na universidade foi um processo de aprendizado também para os professores. A capacidade de argumentação e o bom desempenho em sala de aula logo chamaram a atenção. Apesar de necessitar de auxílio, Felipe é um excelente aluno. Faz as provas com a supervisão da coordenadora de acessibilidade, em uma sala separada. A mãe transcreve suas respostas para a folha de avaliação.

A princípio, alguns professores não perceberam sua capacidade intelectual e até o tratavam de forma mais infantil, mas bastaram algumas aulas até que todos pudessem notar seu potencial.

A mais recente aquisição tecnológica de Felipe é o eye tracker, uma ferramenta que faz monitoramento dos olhos e possibilita escrever com o olhar. Assim, trabalhos da universidade que antes precisavam ser escritos através do tablado e com a ajuda da mãe, agora podem ser feitos de forma mais independente. O processo de digitação no novo dispositivo não é rápido e exige paciência. Porém, para Felipe, significa um passo adiante em direção à liberdade de expressão. Um recurso para ele se inserir no mundo.

Felipe usa diariamente tecnologias assistivas, como a cadeira de rodas, o carro adaptado, o eye tracker, o tablado e o notebook para realizar as tarefas como os outros alunos da classe. Sua história mostra que a maneira mais conhecida de fazer as atividades não é a única, é apenas uma delas.

Felipe Micalli utilizando eye tracker, tecnologia assistiva, pela qual pode digitar com os olhos.

A importância das tecnologias assistivas

Muita gente desconhece, mas pode haver um arsenal de recursos capaz de ajudar pessoas com deficiência a levarem a vida da forma mais independente possível, já que minimizam alguns dos problemas enfrentados por eles. Essas tecnologias assistivas (TA) facilitam a realização de ações que até então não seriam possíveis, como explica a fonoaudióloga Karina Sella, que atende PCs na ONG Nosso Sonho há dez anos.

Para a especialista, define-se tecnologia assistiva como um conjunto de recursos de apoio que suprem as necessidades neuromotoras ou de comunicação do indivíduo. Através desses equipamentos, aquilo que o paciente tem de melhor é potencializado, o que o permite descobrir novas possibilidades. "Os pacientes descobrem o que podem fazer, e com a TA eles podem fazer coisas que a deficiência acaba limitando", diz.

Definição de Tecnologia Assistiva

O Comitê de Ajudas Técnicas (CAT) define tecnologia assistiva como "uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar. Engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social".

O CAT, instituído em 16 de novembro de 2006, pela Portaria nº 142, foi estabelecido pelo Decreto nº 5.296/2004 no âmbito da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República para possibilitar e dar legitimidade ao desenvolvimento da tecnologia assistiva no Brasil.

CATEGORIAS DA TECNOLOGIA ASSISTIVA

Fonte: Site Assistiva Tecnologia e Educação, conteúdo de autoria de Mara Lúcia Sartoretto e Rita Bersch

Comunicação alternativa

Dentro das tecnologias assistivas, existe a "comunicação suplementar e alternativa (CSA)". A fonoaudióloga Karina explica que este recurso pode ser utilizado como opção para aquela pessoa que tem inabilidade na comunicação oral. "Têm pacientes que até se comunicam, mas precisam de um recurso suplementar", esclarece.

Quanto às ferramentas usadas, geralmente são construídas a partir de materiais como cartões ou pranchas de comunicação. Personalizadas para cada paciente, podem conter desde sinais gráficos, reunidos por categorias, como também fotos, palavras e até mesmo o próprio alfabeto.

A escolha desses instrumentos da CSA depende de uma avaliação cognitiva, que revela o nível de aprendizado de cada um. "É como com um bebezinho: você não vai usar uma figura que ele ainda não sabe o significado. Existem pacientes que precisam de um primeiro contato para que você consiga trabalhar com a figura. Por mais real que ela pareça ser, não deixa de ser uma questão abstrata daquela ideia", esclarece a especialista. Quanto à idade adequada para apresentar o sistema, estima-se em dois anos.

O sistema mais disseminado é o PCS, abreviação da palavra Picture Communication Symbols. Criado pela fonoaudióloga americana Roxanna Mayer Johnson, em 1980, foi traduzido no Brasil como Símbolos de Comunicação Pictórica. "PCS são imagens que tentam representar uma ideia, um conceito. São pictográficas porque tem uma semelhança física com o que é real", diz a especialista.

Outro método conhecido é o Bliss (Blissymbolics) - Sistema Bliss de Comunicação, originário do Canadá. "Ele não foi feito para ser usado por pessoas com deficiência e, sim, em casos de dificuldade de comunicação. Mas foi depois de passar a ser usado por pessoas com paralisia cerebral que começou a dar certo", explica Karina. Criado por Charles K. Bliss e inspirado na escrita pictográfica chinesa, já não é tão utilizado atualmente. "É o mais difícil, pois requer um cognitivo melhor por ser bastante simbólico", justifica.